“Existem momentos vertiginosos na vida, em que vemos tudo com clareza, sentimos a própria força, as possibilidades, vemos a condição ante a qual éramos medrosos ou fracos. São os momentos de mudança. Essas coisas chegam sem aviso como a morte e a conversão.” De Verdade, Sándor Márai
"Existen momentos vertiginosos en la vida, en que vemos todo con claridad, sentimos la propia fuerza, las posibilidades, vemos la condici{on ante la cual éramos miedosos o débiles. Son momentos de mudanza. Estas cosas llegan sin aviso como la muerte o la conversión." La mujer justa, Sándor Márai ***************************** Queridos leitores: Obrigada pelo carinho e por ter-me acompanhado nesta incrível maratona de leituras que durou 6 anos. Volto para minha terra com o coração contente por ter conhecido cada um de vocês. O grupo continuará se reunindo em 2015, para mais informação: entrar em contato com Cecilia e Patrícia no facebook.
Gracias por el cariño y por haberme acompañado en esta increíble maraton de lecturas que duró 6 años. Vuelvo a mi tierra con el corazón contento por haber conocido a cada uno de ustedes. El grupo continuará reuniéndose en el 2015, para más información: comunicarse con Cecilia y Patricia por facebook. https://www.facebook.com/groups/1537481239838388/
Comemoramos 6 anos de existência do Nosso Clube de leitura! Quem de nós teria adivinhado, lá atrás, em setembro de 2008, quando criamos o grupo, com Andréa, que esta maratona de leituras iria durar tanto tempo? Os anos voam... Nesse tempo lemos juntos mais de 70 livros, além de muitos contos, poemas e crônicas. OBRIGADA A TODOS OS AMIGOS QUE NOS ACOMPANHAM DESDE SEMPRE!
Encontro n°72, 28/10/2014
Primeiro encontro: "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis, 18/11/2008.
“se pudesse, esquecia-se de ser emotivo, gostava de
acreditar que a vida podia existir apenas como para uma máquina de trabalho
perfeita, incumbida de uma tarefa muito definida, com erro reduzido e já
previsto, e com isso atender ao mais certeiro objetivo, enviar algum dinheiro
para a família na ucrânia, e nem pensar muito nisso e nunca dramatizar a
questão. depositar o dinheiro, saber que seria levantado lá tão longe, e mais
nada, pensar no ato como um ofício a mais, um item no seus afazeres, retirar
daí a felicidade das máquinas, uma espécie de continuo funcionamento sem
grandes avarias ou interrupções. a felicidade das máquinas, para não sentir
senão através do alcance constante de cada meta, sempre tão definida e cumprida
quanto seria de esperar de si.”
O Apocalipse dos trabalhadores, Valter Hugo Mãe
Valter Hugo Mãe
Nosso Clube de Leitura esteve com ele na Pauliceia Literária 2013:
“No seu canto da zona oeste de Londres e ao cumprir as rotinas diárias em que não dava muita atenção ao que existia à sua volta, era fácil para Clive imaginar a civilização como o somatório de todas as artes, juntamente com o design de qualidade, boas comidas, bons vinhos e coisas do gênero. Mas agora ela parecia ser o que realmente era – quilômetros quadrados de casas modernas e ordinárias cujo principal propósito consistia em sustentar as antenas de TV; fábricas produzindo coisas sem valor para serem anunciadas nas televisões; e, em lúgubres pátios, caminhões fazendo filas para distribuí-las; fora disso, estradas e a tirania do tráfego. Parecia a manhã seguinte de uma festa da pesada. Ninguém gostaria que fosse assim, mas ninguém fora consultado. Ninguém o planejara, mas a maioria das pessoas tinha de viver ali. Vendo aquilo quilômetros após quilômetros, quem poderia imaginar o que eram a bondade e a imaginação, quem poderia imaginar que Purcell ou Britem, Shakespeare ou Milton jamais tivessem existido? Depois que o trem ganhou velocidade e se afastou mais e mais de Londres, ocasionalmente o campo surgia e, com ele, vestígios de beleza, ou a memória dela, até que segundos depois o encanto se dissolvia quando um rio virava um canal com margens de concreto ou se via uma imensa plantação sem sebes e sem árvores. E haja estradas, novas estradas se insinuando sem cessar, sem pejo, como se a única coisa importante fosse ir de um lugar para outro. No que concernia ao bem-estar de qualquer outra forma de vida na Terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, mas um erro desde o começo.” Amsterdam, Ian McEwan
Andréa del Fuego, com poucas palavras e de um jeito muito poético, conta a história dos Malaquias, uma família que é atingida por um raio deixando órfãos a os protagonistas do livro: Nico, Julia e Antônio.
Baseado em fatos reais da família da autora e escrita com realismo mágico o romance nos cativa desde o começo até o final.
O grupo inteiro amou ler este romance!
Os Malaquias ganhou o Prêmio Saramago de 2011.
Trechos do livro: "Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.”
“Nico estranhava a cor que ele mesmo nunca via, mas sentia através do outro. Via o azul no contentamento de quem se dirigia a ele, ninguém se defende do claro. Com os olhos escuros Nico absorvia quem chegava, nele pesava a escuridão de quem o encarasse.” Andréa del Fuego, Os Malaquias.
“Nem a morte de Dolfina mexeu tanto. Veio tudo: Antônio, o suor da mãe, o cheiro agridoce do pai, a casa, o terreiro, o trovão. Saiu correndo para o quarto dos fundos, a febre galopava, cavalo sem rumo. A lembrança era uma cortina, a agonia um sofá, mobiliaria uma casa com aquela pilha de perturbações.”
“Dentro do caldeirão, três bolhas emergiram, era a própria Geraldina reagindo com vigor à alta temperatura, rodopiando como se em volta dela houvesse um bambolê e dentro dele, ela se contorcesse. Ar de bolha.” Andréa del Fuego, Os Malaquias.
“A essa altura, Geraldina já havia readquirido autonomia e raciocínio. Ouviu da lâmpada o nome do filho, estava vibrátil ao que gestou. Enovelada na espiral, desapertou-se para atravessar o fino vidro da lâmpada. Misturada ao ar, sem jamais ser aspirada por alguém da sala. As substâncias se diferem pelos números, ela era ímpar, o ar, par. Os pulmões os reconhecem. Livre, arraia indo se camuflar na areia, foi descendo até encostarse no chão frio do cimento. E no choque térmico voltou para os pés de Antônio.”
“Muitos anos depois, muitas palavras depois, muitos livros depois, encontrei numa folha de um livro antigo, escrito por um filósofo francês, uma frase que coloca em palavras a minha distância dos humanos. Penso, logo existo. A frase me deixou de boca aberta, porque é, evidentemente, inacreditável. Basta ter dois olhos na cara para ver que tudo o que existe primeiro existe e depois faz outras coisas. Porém, o mais incrível é que o filósofo não está propondo que seja assim, mas apenas colocando em palavras o que os humanos pensam a respeito de si mesmos: que primeiro pensam e depois existem. E o pior é o seguinte. Como os humanos vivem assim, acreditando que primeiro pensam e depois existem, pensam que tudo aquilo que não pensa não existe completamente. As árvores, o mar, os peixes dentro do mar, o sol, a lua, uma montanha ou uma enorme cordilheira: não, não existem completamente, existem num segundo nível de existência, uma existência menor. E, portanto, merecem ser mercadoria ou alimento ou paisagem dos humanos, e nada mais. E quem garante aos humanos que o pensamento é a atividade mais importante do universo? Quem garante que o pensamento é a atividade mais importante do universo? Quem garante que o pensamento é a atividade que divide todas as coisas entre superiores e inferiores? Ah, o pensamento. Mas, em compensação, Eu nunca esqueci que primeiro existi e depois aprendi, muito trabalhosamente a pensar.” "Muchos años después, muchas palabras después, muchos libros después, encontré en una hoja de un libro antiguo, escrito por un filósofo francés, una oración que pone en palabras mi distancia con los humanos. Pienso, luego existo. La oración me dejó la boca abierta, porque es, evidentemente, increíble. Basta tener 2 ojos en la cara para ver que todo lo que existe, primero existe y luego hace otras cosas. Pero lo más increíble es esto, que el filósofo no propone que así sea, sino que sólo pone en palabras lo que los humanos creen acerca de sí mismos. Que primero piensan y luego existen. Y lo peor es lo que sigue. Que como los humanos viven así, creyendo que primero piensan y luego existen, piensan que todo aquello que no piensa no existe del todo. Los árboles, el mar, los peces dentro del mar, el sol, la luna, un cerro, una enorme cordillera: no, no existen del todo, existen en un segundo nivel de existencia, una existencia menor. Por lo tanto merecen ser mercancía o alimento o paisaje de los humanos, y nada más. ¿Y quién les asegura a los humanos que el pensamiento es la actividad más importante del universo?¿Quién les asegura que el pensamiento es la actividad que distingue todas las cosas entre superiores e inferiores? Ah, el pensamiento. En cambio, Yo nunca he olvidado que primero existí y luego aprendí, y muy trabajosamente, a pensar. Y cada día para mí ésa es la realidad. Yo primero existo y luego, y sólo a veces, y con una lenta dificultad, y nada más cuando es estrictamente necesario, pienso. Bueno, y ésa es mi distancia con los humanos".
Sabina Berman
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Lembrancinha do encontro:
Poemas de
WISLAWA SZYMBORSKA
Sob uma estrela pequenina
Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.
Wislawa Szymborska - escritora polonesa,
ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 1996
O terrorista, ele observa
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar;
alguns de sair.
O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal.
E a vista, bom, é como no cinema:
Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta,
“De vez em quando, a vida nos proporciona tempo, tranquilidade e dolce far niente suficientes para fazer o tipo de pergunta que quase não fazemos na pressa do cotidiano: Qual é a extensão de suas lembranças sobre a mecânica da fotossíntese? Você já conseguiu falar a palavra `ontologia´ em alguma conversa? Em que momento exato você se desviou só um pouquinho da vida relativamente normal que vinha levando até então, em que momento se desalinhou de maneira infinitesimal para a esquerda ou para a direita, embarcando assim na trajetória que acabaria por levá-lo para onde se encontra agora – no meu caso, o Centro Correcional de Rikers Island?” Jennifer Egan, A visita cruel do tempo.
“Alegam os poetas que, ao adentrar alguma casa ou algum jardim onde moramos quando jovens, reencontramos por um instante aquilo que já fomos. São peregrinações muito arriscadas, que produzem em igual medida sucessos e desilusões. Esses lugares fixos, contemporâneos de outros anos, é dentro de nós mesmos que mais convém encontrá-los.” Marcel Proust, Em busca do tempo perdido
"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." Clarice Lispector
Laços de família
Lazos de familia
“No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera. Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.” Clarice Lispector, trecho do conto: Amor "´Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante do crime que eu nunca tinha cometido. A possibilidade de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer´, pensou o homem cada vez mais lúcido. ´Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão´, pensou o homem. ´Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.´” Clarice Lispector, Trecho do conto: O crime do professor de matemática
“Mas que sensibilidade!, agora não apenas por causa do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando nas escamas. Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adiante: porque era protegida por uma situação, protegida como toda a gente que atingiu uma posição na vida. Como uma pessoa a quem lhe impedem de ter a sua desgraça. Ai que infeliz que sou, minha mãe. Se quisesse podia deitar ainda mais vinho no copo e, protegida pela posição que alcançara na vida, emborrachar-se ainda mais, contanto que não perdesse o brio. E assim, mais emborrachada ainda, percorria os olhos pelo restaurante, e que desprezo pelas pessoas secas do restaurante, nenhum homem que fosse homem a valer, que fosse triste mesmo. Que desprezo pelas pessoas secas do restaurante, enquanto ela estava grossa e pesada, generosa a mais não poder. E tudo no restaurante tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá Deus por toda a gente.”Clarice Lispector, trecho do conto: Devaneio e embriaguez duma rapariga
“Existir é tão completamente fora do comum que se a
consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nos enlouqueceríamos.
A solução para esse absurdo que se chama ´eu existo´ é amar um outro ser que, este, nós
compreendemos que exista.”
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector
Na entrevista com Júlio Lerner,1977.
O especial traz depoimentos de admiradores de Clarice. No seguinte link há trechos de uma entrevista em espanhol que Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant´Anna e João Salgueiro lhe fizeram no Museu de Imagem e Som do Rio no ano 1976. En el siguiente artículo se incluyen los trechos más relevantes de una entrevista que le hicieron a Clarice en el Museo de Imagen y Sonido, Rio de Janeiro, 1976. http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/libros/10-4775-2012-08-26.html
“Em Recife onde morei até doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender o direito dos outros. No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.” Clarice Lispector
teve a coragem de amar uma mulher com fino cabelo de cristal. à noite, na escuridão da cama, não lhe tocava por amor, e por amor a mulher cuidou do seu cabelo, cada vez mais frondoso e delicado. por isso, passeava o casal orgulhoso de tanta beleza pelas ruas. entravam em casa só mais tarde, quando ninguém sobrava para ver. era também quando se amavam sem se poderem suportar. cada um para seu lugar sem dizer mais nada, com a tensa proximidade da violência. sem filhos, desligavam as luzes e emudeciam. era quando alguns animais irrompiam pelos poros das paredes e lhes fungavam nos pescoços. o cabelo da mulher ondulava em cintilações no escuro, pela moléstia das pequenas cócegas e mordidas.
poema sobre o amor eterno
inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhes falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de sedução. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desesperado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar.
poema do amor e da tenra idade
havia um lugar muito distante onde as crianças não tinham um braço no meio do peito. eram crianças horríveis apenas com um braço de cada lado, vindo de cada ombro. só muito mais tarde, já adultas, o braço do peito lhes crescia. por isso, nunca se apaixonavam na adolescência, incapazes de agarrar nos corações umas das outras. o governo, quando soube de tal deficiência nos pobres habitantes daquele lugar, incapaz de suscitar o atempado crescimento desse braço tão fundamental, ordenou que se fizesse um pequeno buraco no peito de cada criança, por onde, ainda que sem lhe tocar, pudessem ver o coração umas das outras. foram raros os casos mas, a partir de então, tornou-se possível encontrar seguros amores de adolescente.
poema das árvores e da aprendizagem
tudo o que as àrvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem, não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaro, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba para dentro de si mesmo, com felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só a aceitação sábia do tempo.